quarta-feira, 6 de maio de 2009

O atraso atrasa a vida

“A pontualidade é a gentileza dos reis”.
Luís XVIII
Dentre as muitas características próprias que, apesar de detestar, não consigo deixar de ter, a falta de pontualidade é a que, no momento, mais tem me causado constrangimentos. Tenho sentido na pele aquilo que é um lugar-comum: a falta de comprometimento com o horário causa desconfiança e perda de credibilidade. Mais ainda: o atraso atrasa a vida!
No entanto, penso que nem todos os retardatários são da mesma estirpe. Há aqueles que se atrasam para mostrar poder, para mostrar a todos quanto a sua importância para o grupo — chefes de Estado, como Fidel Castro, são ótimos exemplos disso. Penso não me incluir nesse grupo, posto que nunca quero me atrasar, mas sim a um outro numeroso grupo: o formado por aquelas pessoas que querem fazer tudo o que for possível em um mesmo dia, que insistem em brigar contra o sono porque “não fizeram nada de útil o dia todo”, mesmo que o dia tenha sido repleto de fatos e realizações, o que geralmente não ocorre. Assim, querem ler um extenso livro em uma madrugada, aprender uma linguagem de programação em uma noite, ouvir toda a discografia de um novo cantor de uma só vez, ou, simplesmente, aproveitar um pouco mais o fato de não ter nada pra fazer. O resultado dessa indignação, dessa busca incessante por coisas quaisquer? O futuro breve cobra a conta e nos rouba nosso tempo.
“A pontualidade é a virtude dos entediados”, dizia Evelyn Waugh, romancista inglês que, percebe-se, não tinha muito apreço pelo relógio. Por um lado, concordo com ele e vejo que, de fato, à maioria das pessoas que são cumpridoras de horário falta algo como “existência interior”, vivendo seus dias em certa em monotonia, vivendo para o exterior, como se não soubessem como utilizar seu tempo. Sempre precisando de uma atividade para guiá-lo. Porém, em contraponto, percebo que essas mesmas pessoas geralmente são mais bem vistas pela sociedade (merecidamente, é justo frisar) e levam uma vida com menos sobressaltos, para dizer o mínimo. Agora, é bom ter uma vida com poucos sobressaltos? Não sei, pois simplesmente não consigo me contentar com a idéia que alguém ou algo toma controla minhas decisões. Sempre quero fazer outra coisa, por menos que trabalhe por menos tempo que cumpra qualquer obrigação.
Deve ser latente, pelo exposto acima, que a questão não é que eu tenha aversão ao cumprimento de horário, mas sim a obrigação. Deve haver algum fator, quer seja psicológico ou cultural, que faz, obstinadamente, com que eu viva lutando contra os ponteiros do relógio. Com franqueza, posso assegurar que ser um retardatário angustia, faz com que se sinta sempre em dívida com os outros — colegas de trabalho, família, amigos, affaires, especialmente quando a pessoa esforça-se, mas, não obstante, é incapaz de honrar seus compromissos.
Por fim, juro que não sou um vagabundo. Mas é como se fosse. Preciso ler mais o post sobre responsabilidade...