terça-feira, 25 de agosto de 2009

Se deixe conhecer...


Betê tinha três casacos. Um quente e confortável, de lã e de gosto duvidoso. Tinha também aquele preto que todo mundo tinha, curto demais, que não esquentava. E por fim tinha aquele social, o caro, que ela comprou no mesmo dia em que recebeu seu terceiro salário como atendente no escritório de contabilidade. Ela não costumava usá-lo, achava que só ficava bonito nas pessoas que ela gostaria de ser.
Betê tinha esse apelido porque adorava beterraba. Ela não era tecnicamente gorda, ela era grande, do tipo que não se enquadra nos padrões de beleza atuais. Ela era muito sensível, embora ninguém o soubesse. Possuia duas amigas que a tinham como conhecida. Preferia passar seu tempo com os animais e sentia que a modernidade mascarava o verdadeiro espírito humano. Betê tinha uma cadeira de leitura preferida em sua sacada, ela havia comprado um crisântemo com o qual conversava silenciosamente todas as tardes.
Betê gostava de estar sempre de unhas feitas. Ela se sentia muito sozinha e sabia que se alguém lhe desse uma oportunidade ela iria respeitar, ouvir, e dividir seu universo com aquele alguém. Antes de dormir por vezes se imaginava uma sereia ruiva à lua cheia. Betê queria causar paixão e calafrio. Encantar e criar medos, saber de segredos e experimentar as mais intensas emoções.
Ela gostaria de cantar e escutar um elogio, mas nunca teve coragem de cantar em público. Afinal ela não tinha voz para fazê-lo. Queria fazer uma viagem em grupo, queria ter um grupo de amigos com que pudesse viajar sem direção nem freio.
Ela podia ser tão feroz quanto gentil. Possuía uma curiosidade quase infantil. Tinha planos de se tornar psicóloga ou neurologista, ainda não sabia. A mente humana a encantava. Estava começando uma poupança, pois queria comprar um apartamento só seu aonde pudesse levar seu crisântemo e adotar um gato amarelo.
Betê nunca soube de seu apelido, nem que ninguém a sua volta sabia seu verdadeiro nome. Quase ninguém conheceu Betê, ela era apenas a moça da recepção. Nunca ninguém quis aproximar-se realmente dela. Ela se foi e levou consigo um mundo que nunca soube dividir.
Quando servem beterraba no restaurante que costumava almoçar, alguns (poucos) colegas lembram-se, mas raramente comentam, como ela digitava rápido e de como seu café nem era tão bom assim.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Uma história qualquer


Ela andava apressada carregando bolsa, papéis, livros, e a alça do seu sobretudo a incomodava. Ahhh aquele era um bom momento para um café.
Ela havia saído atrasada.
Depois de brigar com o despertador, ligá-lo e desligá-lo por incansáveis vezes, ela se rendeu. A partir daquele momento seu tempo não a pertencia. Foi ao banheiro, lavou o rosto e olhou fundo nos olhos daquela estranha que lhe dizia: Coragem!
- Por segundos sua noção de tempo parou e ela sentiu um pouco de consciência plena mesmo que não definisse em imagem seus pensamentos.

Saiu do transe, vestiu a calça de ontem, a blusa da semana passada (aquela em que ela se sentia segura), deu um nó no cabelo, escovou os dentes enquanto calçava as botas e pensava que já era hora de comprar sapatos novos.
Pegou a bolsa correndo, aquela de sempre, a maior, cheia de coisas inúteis e velhas, mas ainda sim pesada demais. Pegou seus livros e somente ao descer as escadas notou que estava chovendo.
Procurou a sombrinha, mas ela a havia tirado na noite anterior, pois a bolsa estava muito pesada.
Ela não tinha tempo pra voltar. Seu tempo não a pertencia e ela já tinha perdido muito dele parada na porta do prédio pensando a respeito. Esses poucos segundos significavam muito para o motorista do ônibus. Ela decidiu correr, já era tarde de mais. Droga! Ela realmente não queria se atrasar. Havia se atrasado ontem e jurava pra si mesma que havia feito o possível, mas mais uma vez simplesmente não conseguiu, seu corpo não permitiu. E agora suas ligações peptídicas a entristeciam. Ela se sentia uma vítima. Uma vítima que não tinha tempo de se lamentar.

Resolveu acender um cigarro. - Bons tempos aqueles em que não se sabia o mal que ele fazia, disse pra si mesma. Procurou pelo isqueiro. Maldita bolsa aonde não se acha na...
- Fogo? - Perguntou uma voz atrás dela.
(Susto!)
Novamente foi como se o tempo parasse e ela desejou que ao olhá-lo no rosto, finalmente visse aquele por quem esperava a vida toda.
- Claro, aqui está.
- Ahh obrigada.
-(risos quase inaudíveis).
- Qual a pergunta que povoa seus pensamentos hoje? - disse ele.
- Como? (ele era belo, diferente e a olhava nos olhos. Dois infinitos dos quais ela não conseguia desviar o olhar)
- Te ofereço um café quente em troca de tuas idéias, ali naquela padaria, do outro lado da rua.
O próximo presente que ela se lembra é de que ele resolveu molhar o biscoito no leite. Costume grosseiro, mas ele não parecia se importar. Ela estranhamente também não se importava. Descobria que todas as idéias dele eram baseadas no mundo das idéias de Platão e que ele admirava a força de Kant por buscar nas ciências as respostas que formulou na filosofia. Ele usava uma camiseta preta e por cima uma camisa xadrez, seu tênis era velho e seu livro era de história. No bolso ele levava chicletes.
Ela não sabia o que ele fazia, de onde tinha vindo nem para onde ele iria. Mas se sentia feliz em saber que ele entendia que haviam coisas mais relevantes a serem divididas.
Ele nem sempre concordava com o que ela dizia, mas usava de argumentos respeitosos, lógicos e interessantes para expor seus pontos de vista. Ela notou que ele admirava a natureza, que seu cabelo molhado pela chuva o deixava ainda mais belo e que ele não tinha uma idéia formada sobre Deus. Que fumava malboro vermelho, e que tinha um canto da mão sujo de tinta. Descobriu que para ele a crise ecológica era necessária para a evolução do pensamento humano sobre a fragilidade do planeta e que tinha um ótimo senso de humor. Percebeu que poderia passar o resto da vida dividindo memórias com aquele universo que se materializava em idéias a sua frente e que talvez a felicidade plena existisse enfim.....................................................
Quando se deu conta, saiu novamente de seu transe mental e todos os motores voltaram a funcionar. Chovia muito e a avenida estava novamente barulhenta.
O próximo ônibus se aproximava.
Seu cigarro havia acabado.
Ela olhou para o isqueiro verde e pensou... Não foi desta vez... Tentou pensar quem seria seu dono... Ela tinha essa mania de esquecer-se de devolver coisas alheias... Agora já não fazia diferença: Ela estava atrasada.

sábado, 8 de agosto de 2009

Corpo nú


Tiro o mundo que há em mim.
Para o chão, as histórias que me vestem.
Vejo então, a mulher de hoje
ansiando por disfarces.
Constrangida.
Revestida por sua imagem esquiva,
há bom tempo relegada.
Estranha, agora, hei de te encarar.
Fostes modificada pelo tempo,como não percebi?
Mudanças que suscitam a veleidade de me lamentar.
Mas só me resta cuidar dos restos do que um dia fostes
suportar o escrutínio e prestar-te contas adiadas.

Apontas meu pai e minha mãe,
em ângulos, vislumbrados.
O rosto e as mãos do amante,
na lembrança, reencontrados.
Mas, não. Hoje, não.
Mesmo que tudo
pareça convergir ao chão,
hoje, não.
Falar deles é fugir de ti,
estranha,
mesmo que te tenham dado,
uns e outro, a
vida e posse deste corpo.
Hoje, somos nós.
Hei de te encarar,
suportar o escrutínio,
prestar-te contas
adiadas.

Espelhas, implacável,
marcas no rosto,
sulcos mais fundos e uma pele cansada
como não percebi essa leve papada?
Colo ainda belo,
Orgulho e alívio.
Seios pesados,
belos e amados.
Na cintura, os excessos
da mesa e do ócio.
O ventre arredondado,
corpo de matrona,
barroca demais,
nos dias de hoje.
O sexo,
mais sábio que o resto do corpo
encontra no tempo
prazer e autoridade.
As pernas,
foco eterno de repulsa e birra,
sustentam, olímpicas,a vitória e
a primazia do desgosto.

A estranha,
cujo corpo envelhece
fenece e morre,
me encara.
Não há contas a prestar.
Estamos quites.
Mesmo que tudo
pareça convergir ao chão,
e aquém,
quem sabe além,
mergulho no espelho
e encontro
a estranha que por dentro sou
também.