sábado, 8 de agosto de 2009

Corpo nú


Tiro o mundo que há em mim.
Para o chão, as histórias que me vestem.
Vejo então, a mulher de hoje
ansiando por disfarces.
Constrangida.
Revestida por sua imagem esquiva,
há bom tempo relegada.
Estranha, agora, hei de te encarar.
Fostes modificada pelo tempo,como não percebi?
Mudanças que suscitam a veleidade de me lamentar.
Mas só me resta cuidar dos restos do que um dia fostes
suportar o escrutínio e prestar-te contas adiadas.

Apontas meu pai e minha mãe,
em ângulos, vislumbrados.
O rosto e as mãos do amante,
na lembrança, reencontrados.
Mas, não. Hoje, não.
Mesmo que tudo
pareça convergir ao chão,
hoje, não.
Falar deles é fugir de ti,
estranha,
mesmo que te tenham dado,
uns e outro, a
vida e posse deste corpo.
Hoje, somos nós.
Hei de te encarar,
suportar o escrutínio,
prestar-te contas
adiadas.

Espelhas, implacável,
marcas no rosto,
sulcos mais fundos e uma pele cansada
como não percebi essa leve papada?
Colo ainda belo,
Orgulho e alívio.
Seios pesados,
belos e amados.
Na cintura, os excessos
da mesa e do ócio.
O ventre arredondado,
corpo de matrona,
barroca demais,
nos dias de hoje.
O sexo,
mais sábio que o resto do corpo
encontra no tempo
prazer e autoridade.
As pernas,
foco eterno de repulsa e birra,
sustentam, olímpicas,a vitória e
a primazia do desgosto.

A estranha,
cujo corpo envelhece
fenece e morre,
me encara.
Não há contas a prestar.
Estamos quites.
Mesmo que tudo
pareça convergir ao chão,
e aquém,
quem sabe além,
mergulho no espelho
e encontro
a estranha que por dentro sou
também.