Mariana já estava cansada de tentar entender o mundo, afinal o mundo não a entendia. Em uma daquelas manhãs em que a última coisa que se quer é encontrar o antigo colega de escola. Já na escada rolante da estação ela enxerga Plíneo. Plíneo era ruivo com espinhas lutando por seu lugar ao sol e vestia uma camisa regata aonde se lia: Educação Física. Para Mariana, professores de Educação física estão para a classe de mestres como seguranças de shopping estão para veteranos de guerra. Já era impossível fingir que não o havia visto. Ele fez questão de levantar o braço, acenando e deixando seus pêlos ruivos do sovaco à mostra o que fez Mariana lembrar por breves segundos das fotos de MRI do cérebro humano da edição da Scientific American daquele mês. Mas isso não vem ao caso.
Depois de um breve "quanto tempo" e uma relativamente rápida descrição do ambiente serotonina e noradrenalina aonde ele vinha trabalhando, de como o exercício físico era importante para o corpo e de como o cigarro recém aceso de Mariana a estava fazendo mal, chegou a hora dela de colocar a cronologia de sua vida em ordem para Plíneo.
- Sou física.
- Também? Nossa que coincidência e onde você malha?
- Não você não tá entendendo. Sou física... Tipo, física, cientista.
- Ahhh olha bem pra minha cara, fala sério!
- Estou falando. (olhar para cara dele é que era difícil, já que cara remetia certa familiaridade com a lua Europa o que a desconsertava os pensamentos)
- Você é maluca!
- Maluca? -E nesse ponto a ira reprimida por anos de Mariana sobre aquela afirmação repetida entrou em erupção.- Bom Plíneo, pra começo de conversa, meu pai e minha mãe eram jovens e irresponsáveis, me colocaram aqui sem saber porquê, sem manual, sem razão. Fato comprovado no seu divórcio prematuro. Teve gente nesse mundo, acredite você ou não, que em vez de ficar correndo por aí, decidiu que poderia haver um manual.
Uma espécie de livro que explicasse como a vida funciona e o que podemos fazer com as coisas na nossa volta.
Eles pesquisaram muito e em mais ou menos setecentos anos, chegaram a conclusão que o mundo é realmente complexo, belo e fala através de uma linguagem, a chamada matemática, que provavelmente você não conheça e por isso abomine que é uma espécie de código matrix sobre o livro da vida.
Passamos a maior parte da nossa história ralando e servindo a algum filho da puta que lucra com o nosso tempo, simplesmente para que tenhamos um pouco mais de conforto e para que estejamos firmes e fortes para amanhã entregar mais dinheiro na mão do mesmo filho da puta. Qual o propósito disso? Você já se perguntou?
- Claro que já.... ahh.. Mas não tem propósito não.. Relaxa... Perguntei por perguntar.
- Eu não pergunto por perguntar. Pergunto por que quero saber. Distraia-se, pegue esse trem e vá para onde tiveres que ir, mas lembre-se que teve alguém por trás disso. Alguém que teve que entender como colocar esse trem pra funcionar. Alguém teve que compreender a divisão de força através do uso de roldanas para que hoje você pudesse ajudar esses mesmos filhos da puta a levantar peso. E se tentar entender uma forma de traduzir o livro da vida não é nem um pouco interessante pra você. O louco aqui não sou eu.
Plíneo e Mariana subiram no trem e sentaram em bancos separados.
- Nunca fui com a cara desta Mariana, menina besta!- pensou Plíneo. Ligou seu mp3 e como de costume seguiu escutando Silvetty Montilla enquanto repassava suas aulas do dia.
Mariana sentada olhou para sua barriga e visualizou a ilustração do efeito Doppler em suas dobras. Percebeu que não estava cansada de entender o mundo, mas de entender as pessoas e achou que além de começar a se exercitar também estava na hora de parar de fumar.