quinta-feira, 21 de maio de 2009

Antônio

Antônio está inquieto.
- Já é difícil manter-me aqui - pensa ele enquanto abre a lata do refrigerante no estacionamento da gráfica em que trabalha. Entre elfos de açúcar e castelos de areia, ele só quer voltar. Duas encadernações, cinco horas e uma vontade imensurável de vê-la. O tempo se espaça e o sentido de tudo se vai.
Haveria verdade maior do que o eco estridente de seus sentimentos?
O Rei de Copas aguarda com anseio por sua parceira, mas teme a chegada do Às. O que começou e causou tanta euforia e excitação, também poderia encerrar tudo, fazendo esta bela combinação de imagens virar apenas uma pilha a ser contada e logo esquecida no fundo da caixa.
É preciso jogar com cautela pra não colocar tudo a perder. Ainda assim, o tempo não passa. O Coringa teme, pois sabe que poderia viver eternamente nessa longa espera intrusa para que o jogo não acabe jamais. Entre chás quentes, abraços,final de semana na serra, peixes, um bolo de cenoura, documentários a lá Discovery Channel e frases prontas de livros, alguém acordou dentro dele e não parece querer se calar. O coringa grita tão alto que é quase impossível decodificar o mundo exterior. Entre cópias longas e tediosas ele se esforça para atender as tarefas de sempre. Não se sente apenas mais uma na multidão. Agora, Antônio existe porque ele pensa nela e sabe que ela pensa nele. Pelo resto de sua vida, sua sacada sempre terá duas cadeiras e a brisa da primavera sempre lembrará o perfume dela. Não havendo mais o cômodo silêncio, o Coringa se desconcentra. Qual o som dos seus pensamentos?
Mais do que construir histórias, construirão lembranças. Nem sempre é tão rápido e profundo enxergar, nem sempre é tão fácil escrever e tão simples falar.
A ampulheta foi virada e de grão em grão ele precisa mais dela. E quando não restar mais nada, que leve com ele as idéias dela e a deixe o “eu também” que ainda é tão difícil responder.