quarta-feira, 6 de maio de 2009

Infelizes, não se deprimam!


Conheço, e imagino que todos devam conhecer, gente que se diz deprimida. Ninguém mais se considera infeliz, ou mesmo triste: todos aqueles que estão em dias ruins estão “em depressão”. Embora pareça uma diferença tola, isso está longe de ser uma questão meramente semântica.
A depressão está associada a problemas patológicos, necessita de tratamento, geralmente com uso de ansiolíticos e antidepressivos. A tristeza, por outro lado, é tão-somente um estado natural da vida de toda e qualquer pessoa — ou deveria ser assim, ao menos. A tristeza existe somente para que a felicidade encontre uma razão de existir. A morte existe para que possamos dar valor à vida. Bem como a mágoa, o ódio e tantos sentimentos negativos. Reconhecemos a beleza do bom, apenas porque mais cedo ou mais tarde o perderemos. Infelizes! Celebrem já sua dor!
A principal diferença reside no fato de que, para o infeliz que se julga em depressão, a felicidade é um direito irrevogável. Caso não esteja feliz, é devido a um distúrbio neurológico, jamais graças ao modo de viver e ver a vida. Almejam um hedonismo permanente, só que por vias sintéticas, em vez de buscarem o próprio desenvolvimento para sentirem-se satisfeitas. É preciso olhar bem fundo para si mesmo e antes de buscar subterfúgios médicos, procurar descobrir o que realmente se precisa.
A melancolia, sugerem os autores de tempos mais remotos, acompanha a humanidade desde que se há registros. É totalmente natural, como Cervantes diz: “as tristezas não foram feitas para os animais, mas para os homens”. É uma pena para mim, que essa “supremacia humana” seja levada tão a sério e faça com que nós, humanos, busquemos algo inexistente, motivado por razões místicas e patéticas de felicidade eterna. Somos acima de tudo animais e por tal razão somos escravos de nossa própria natureza. A sabedoria e supremacia humana não estão em tentar modificar as leis impostas por ela, mas de canalizarmos nossa inteligência para fazer o melhor, em nosso benefício, com as ferramentas que nos foram dadas. Mas parece, contudo, que à sociedade moderna não se agrada em continuar sendo humana. Está mais preocupada em focar sua consciência em meros impulsos infantis do que a admirar a necessidade dos extremos. É preciso querer, é preciso perder, é preciso chorar, é preciso enxergar tudo isso e aceitar que todas essas etapas são necessárias para que possamos experimentar e sentir este mundo ao máximo.