segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Catavento


Eduardo estava muito cansado. A vida que levava não era a que havia planejado quando começou a faculdade. A caminho de casa na volta do trabalho, viu o menino malabarista e pensou no seu filho querido, amado, e sem noção do que estaria por vir. Hoje Eduardo achava quase injusto colocar o moleque em um mundo tão violento e desigual, onde passaria a maior parte de sua vida preocupado, com contas a pagar e lutando contra a infelicidade. Na verdade ele teve esse filho para satisfazer Fernanda, mesmo que por vezes machucasse seu coração admitir essa verdade. Ainda na sinaleira, comprou um cata-vento para o garoto.
Seguiu o mesmo caminho que fazia há mais de 8 anos. Ele estava realmente cansado. Chegou em casa e recebeu um beijo da mulher, um beijo também cansado e igual, mas um abraço do filho, um abraço que parecia ser novo a cada dia.
Já estava perto do fim do mês e era hora de sentar e repassar as contas que tinha para pagar. A luz amarelada da sala o agoniava ainda mais, mas era preciso terminar logo o que tinha para fazer, pois no dia seguinte ele precisava acordar cedo.
- Papai, papai vem ver!!!!
- O papai tem coisas importantes para fazer filho, outra hora você me mostra ok?

O menino foi para sacada do apartamento ainda por quitar, levantou seu cata-vento e disse para si mesmo:
- Uau! O vento faz mágica!

Eduardo estava cansado, preocupado com coisas que o tempo lhe fez julgar importante e nunca presenciou o dia em que o universo tomou consciência de si através de suas células renovadas. O menino, por sua vez, nunca mais sentiu tamanha admiração pelo resto de sua vida.